{"id":2935,"date":"2023-02-24T19:59:50","date_gmt":"2023-02-24T18:59:50","guid":{"rendered":"https:\/\/edsandracarneiro.com\/?p=2935"},"modified":"2023-02-24T20:02:04","modified_gmt":"2023-02-24T19:02:04","slug":"para-ser-franca-em-milao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/edsandracarneiro.com\/pt-br\/para-ser-franca-em-milao\/","title":{"rendered":"Para ser Franca em Mil\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">Pontualmente, \u00e0s oito horas da manh\u00e3 de uma quarta-feira de agosto, exibia-se em seu melhor traje casual: bolsa preta, cabelos lisos grisalhos arrumados e seguros por um arco, cord\u00e3o com medalhinha de Nossa Senhora, uma alian\u00e7a e um rel\u00f3gio. Estava impec\u00e1vel e se protegia da chuva. Um dil\u00favio, dizia. Outros anunciavam como um sinal do c\u00e9u em permiti-la sair de casa para passear. Limpeza do caminho, ouviu-se dizer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sempre desejou conhecer a Duomo, a catedral. Mas, em suas palavras, \u201cMil\u00e3o \u00e9 para senhores\u201d. Franca \u00e9 uma senhora, italiana, de 75 anos, e que trabalha todos os dias no campo, fa\u00e7a sol, chuva ou neve. Cuida da lavoura, das cria\u00e7\u00f5es, da casa, da comida, de todos. Tem a pele acariciada pelo tempo e as m\u00e3os emolduradas pelo trabalho na ro\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Est\u00e1 sempre em casa e carrega o trauma de ter sa\u00eddo uma vez, para um jantar de Ano Novo com o falecido c\u00f4njuge na casa de parentes, e um inc\u00eandio devastou tudo o que tinham. O esposo trabalhou para reconstruir os destro\u00e7os e depois se foi embora da terra pelo desgosto que sofreu.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sobraram dois filhos de comportamentos diferentes. Otello, o ca\u00e7ula, solteiro, companheiro e comportamento exemplar, tamb\u00e9m se foi, de repente, quando o cora\u00e7\u00e3o parou de bater. Franca perdeu o ch\u00e3o. Sua vida foi estabelecida \u00e0 margem desses homens. E ainda nos dias de hoje, quando convidada a fazer um passeio, disse que perguntaria ao filho mais velho se poderia viajar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Na esta\u00e7\u00e3o de trem, ela se surpreende e questiona a amiga:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2014 O seu marido n\u00e3o vai?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o.<br \/>\n\u2014 N\u00f3s vamos sozinhas?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 a primeira vez que faz uma viagem \u201csozinha\u201d e recorda quando foi, em Lua de Mel, com o esposo, visitar uma ilha vizinha ao local onde reside. Inicia a contar e, quando se d\u00e1 conta do prazer que est\u00e1 sentindo, imediatamente para de falar e troca de assunto. Olha as pessoas e volta-se para si, analisando-se por inteiro. Aquieta-se e retoma a falar da chuva e de como pode ser corajosa de viajar daquele jeito com aquela idade, debaixo de \u00e1gua. Tem a esperan\u00e7a de que o Sol volte a brilhar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Franca mora a\u00a0cerca de 50 quil\u00f4metros de Mil\u00e3o e, por alguma quest\u00e3o maior, nunca teve oportunidade de passear pela cidade. Foi uma vez rapidamente a um enterro. Entretanto, diz que n\u00e3o deu para ver nada, al\u00e9m de um vel\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Assim que chegou, o c\u00e9u se abriu. As luzes subterr\u00e2neas a deixaram impressionada com o sistema de trem e metr\u00f4. A artrose e osteoporose, limitando os movimentos das pernas e incomodando com a coluna, a fizeram n\u00e3o experimentar as escadas rolantes. Usou os elevadores. Dizia, para quem com ela conversava no trem, que uma estrangeira a levava para conhecer a sua It\u00e1lia, o seu pr\u00f3prio lar. Ironia. Como pode isso?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O olhar preocupado com o deslocar do metr\u00f4 e a ansiedade aumentada pelo ar sombrio do subsolo foram disseminados com a luz que surgia a cada degrau em que alcan\u00e7ava a pra\u00e7a da Catedral. Era como se tivesse visto\u2026 N\u00e3o tinha uma palavra. Havia o sil\u00eancio contemplador diante daquele monumento cat\u00f3lico de estilo g\u00f3tico. Ficou ali olhando e admirando o que via \u00e0 sua frente. E, aos poucos, o semblante s\u00e9rio e recatado foi tomado por um sorriso, n\u00e3o aquele normal, mesmo n\u00e3o podendo exibir todos os dentes. Mas um da alma, do ser. Ela se via capaz de estar \u201csozinha\u201d em uma cidade que n\u00e3o fosse aquela a qual se acostumou a viver.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201cPreciso tomar um caf\u00e9 antes de entrar l\u00e1.\u201dPrecisava respirar. Era hora do almo\u00e7o e sentou-se em um restaurante na galeria Vittorio Emanuele II. Preferiu que a companheira decidisse o prato que iriam comer. Satisfeita, disse que a \u201cra\u00e7\u00e3o\u201d era muito boa, de primeira.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sua vida est\u00e1 ligada ao campo. Mas, a cada movimento, a cada pessoa que surge \u00e0 sua frente e menciona qualquer palavra de gentileza ou generosidade a faz se sentir gente, a faz se sentir mulher. Levanta a cabe\u00e7a e percebe que faz parte do que est\u00e1 vendo. Na igreja, ainda na metade do caminho, pergunta \u201cSer\u00e1 que aguento ver tudo isso?\u201d Caminhava, sentava, levantava e seguia em frente. N\u00e3o s\u00f3 viu tudo, como se permitiu percorrer a cidade e desbravar outros monumentos ainda que desconhecidos pelos ouvidos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ao optar pelo gosto de vida, imortalizou o momento em fotografias. Percebeu que a idade n\u00e3o \u00e9 um empecilho para conhecer o novo. Agora, diz que pretende viver aberta ao amanhecer. Abriu a porta de casa e se deu permiss\u00e3o de ser Franca consigo mesma.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">(Agosto de 2014)<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foto: <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@mikitayo?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Mikita Yo<\/a>\u00a0em\u00a0<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/\">Unsplash<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pontualmente, \u00e0s oito horas da manh\u00e3 de uma quarta-feira de agosto, exibia-se em seu melhor traje casual: bolsa preta, cabelos lisos grisalhos arrumados e seguros por um arco, cord\u00e3o com medalhinha de Nossa Senhora, uma alian\u00e7a e um rel\u00f3gio. 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